Natércia Soluça Lúcida >

Um sítio de galinhas & dramas pessoais

9.7.09

Gatinha*

Como de hábito, caminhava atrasada para o trabalho, sob a névoa fria da manhã. Pé ante pé, não olhava para a paisagem monótona que firmara o meu percurso diário, observava minha botas de camurça negra, gasta nas pontas, a avançar sobre as calçadas de pisos diferenciados. O sinal permanecia vermelho para os pedestres, e eu me mantinha parada ao rés da calçada, quando um silvo de um motoboy, montado e empertigado sob uma viúva-negra, me chamou a atenção:

– Gatinha!

Olhei para o lado e tornei a virar a cabeça para o chão, hipnotizada pelas pontas de minhas botas gastas, e, propositadamente, sem demonstrar reação alguma para o motoboy. O poste, ladeado à minha pessoa – uma mulher de trinta anos, os cabelos molhados, atrasada para o trabalho – tornou-se súbito mole e dele surgiu um duende vestindo uma touca de veludo vermelho. O sinal ainda permanecia fechado, de modo que pude observar melhor aquela aparição. O duende me chamava com os dedotes gordos, e abria a boca, emitindo alguma palavra, cujo significado não compreendia por causa do barulho dos carros, das vans, das motos, e de toda sorte de condução. Destemida, me aproximei do poste – uma possível habitação do pequeno ente – e entendi o que o duende de touca vermelha dizia:

– Gatinha!

Desta vez não me contive, e lhe desferi os piores palavrões possíveis, acentuados pelos esses e erres nordestinos. O duende permaneceu incólume à minha rajada de cus e caralhos, e insistia em me chamar com o dedote gordo, acrescentando um sorriso cínico nos lábios. Como o sinal ainda permanecia fechado, aproveitei o tempo que me sobrava no rés daquela calçada para matar o duende atrevido. Bastava uma só mão para o serviço. Aproximei-me o quanto pude do poste molenga, fingindo cair no chamariz que o maldito tramava, e qual não foi minha surpresa, quando súbito a cabeça do duende se transformou em víbora e sua touca vermelha numa grande língua repartida, que me enlaçou e me empurrou poste adentro, até um indefinido negrume úmido – uma mulher de trinta anos, os cabelos molhados, atrasada para o trabalho – do qual não consigo sair.

*Este texto foi encomedado para uma revista de Fortaleza, da qual ainda não sei o nome.

7.7.09

sortilégio, escamoteio –
mato a saudade dos olhos de meu pai ensaiando no espelho, nos olhos do meu gato.

25.6.09

Este pôr-do-sol que eu vejo na tevê é um pôr-do-sol morto.

13.6.09

“Conheço o número dos grãos de areia e sei
o tamanho do mar; entendo os homens mudos
e posso ouvir os que não falam. Veio a mim
um certo odor, aquele de tartaruga
dotada de carcaça espessa que se coze
em caldeirões de bronze, sendo misturada
com carne de carneiro; o bronze está por baixo,
mas há também por cima dele o mesmo bronze.”
Pítia, em resposta a Croisos, rei da Lídia.

“Era uma bonita velha elegante, dona de um par de olhos grandes que deviam ter sido infinitos.”
D. Paula, trecho do conto de Machado de Assis
.

Saron Vulcão

Do quarto à sala

Tlec. Desligou o despertador antes que relinchasse. Esticou as pernocas ressequidas.
Suspirou. Ergueu as mãos, as nódoas, as manchas-ilhas sugeriam pequenas Malvinas, Falklands, Cabo Verde, Príncipe. A África encarquilhada e arenosa. Vulcões. Vulcões adormecidos na África. Vulcões que calçam meias soquete de lycra para um jogging matinal. Vulcões que pintam trêmulos de azul os cantos dos olhos. Vulcões de olhos opacos, verdes modorrentos, cinzas.
Vestiu o robe rosa desgastado. Calçou as pantufas com destreza. Primeiro o direito, o esquerdo. As pernocas ágeis de Saron. Suspiro, sentada. O ventre amarelecido despontava como lava da calçola de algodão. Uma, duas, três, três dobras e meia. Seis horas da manhã. Clec. A pélvis estreita estalou ao levantar da cama. A pélvis estreitinha de Saron. Caminhou lento até o banheiro de azulejos floridos. O som das pantufas de pelúcia era quase nulo ao roçar o carpetado bege, o carpetado desbotado que cobria o assoalho do quarto. O retrato da filha. O retrato de estúdio de fotografia da filha. O fundo azulado, púrpura, azul-bandeira, tons enfumaçados como uma nuvem limpa. O sorriso molhado da filha, os dentes como os do pai, largos, alinhados. Manuela Vieira de Castro Piccani, veterinária, casada e mãe de Pedrinho. O cabelo em gel pendia para o lado, o olhar, seus mesmos olhos antigos miravam um ponto impreciso, o fundo infinito. Suspiro. “Manuela, minha filha, eu amo você”, amuou.
O rosto encarquilhado, esquadrinhado no espelho do banheiro. A lâmpada do box queimada há uns dias, penumbra azulejada. Espraiar de detergente liquido, sólidos esquecidos na privada. Bidê rosa. Suspiro. A chapa mergulhada no copo d’água. Os restos de dentes na boca. Cracas alaranjadas, incrustadas em molduras metálicas. Bafo ameno de milanos, uma brisa quente, do mangue, de verão. Gargareja, suspira, gargareja, suspira. Cospe. Encaixa a chapa. Hum. Puxa aqui o cabelo, afofa a franja, sorri. Por ora, rosto nu. Meia-lua escavada, bolsa dos olhos, rasgos profundos no cenho. Rosto nu. Canais de rios secos ao redor da boca. Um cu. A velha Senhora Saron Tartaruga deixa o banheiro.
Segue em direção à cozinha. Passa pelo corredor ornado de quadrinhos tortos. Montanhas de uma paisagem europeia, uma praia, Santa Marcelina, Manuela e Pedrinho, falecido marido vestindo a beca com a faixa azul de engenheiro. O dentes alinhados cobertos pelos lábios sérios, finos, que tanto beijou. Hum.
Chega à sala. Um vento frio assombra Saron, “mas estamos em janeiro!?”. Corre para fechar as janelas e avista um pombo inteiramente preto. Saron detesta, sente ondas freáticas de nojo, os pombos, as baratas, os ratos e aos anfíbios de couro lustroso que ela só vê na tevê; mudando de canal num clic rápido. Dando preferência aos programas de culinária conduzidos por senhoras simpáticas e compreensivas. A identificação com as apresentadoras acalantava a “Senhora Saron” – como costumava ser saudada pelos porteiros. A cor dos pombos, aquele indefinido de verde, mesclado com cinza, o violeta, um certo brilho mórbido, e até bonito, quando reluzia o sol. O pombo que pangolava pela sacada da janela era inteiramente preto. “Peculiar”, pensou. Um pequenito urubu. O céu, fundo azulado, púrpura, azul-bandeira, tons enfumaçados como uma nuvem carregada. “Choveria ou o céu estava só de mau-humor?” Fechou a janela seca de alumínio, rnhemm, gemeu.

Da sala à cozinha

Fogo. A chaleira costumeira postada na primeira boca, a esquerda do fogão. Café. Ronco do estômago. Rom. O assoalho frio atravessava a borracha velha das pantufas, os azulejos, grandes Groenlândia, Irlanda, Islândia, Grã-Bretanha. O olhar da filha, seus mesmos olhos antigos, o olhar infinito de Manuela Vieira de Castro Piccani persiste na memória de Saron. Fogo. A Senhora Tartaruga não atentou quando depois de um clic rápido do fogão automático uma víbora de fogo subia e comia a manga de seu robe rosa desgastado. De víbora passou a ser enguia, cobra, jacaré, vulcão. Fogo. A fumaça chamou atenção.

Bronze
O porteiro Isaías, depois de derrubar a porta a marteladas, descreveu emocionado, ao oficial da polícia, o corpo da Senhora Saron como um amontoado de cinzas cheirando a churrasco. O mistério macabro, seus olhos intactos, pequenitos como os de um pombo, mirando infinitos o teto da cozinha.

Terra Descansada de Jhumpa Lahiri
Preparei este livro, que também poderia se chamar Natércia Cansada. O livro é lindo, gostei do ritmo lento e incansável da Jhumpa Lahiri, da narrativa delicada, intricada – como os motivos do vestido indiano que comprei na 25, a caminho das Índias, dia desses. O jeito desta autora nova-iorquina, descendente de indianos, ficou impregnado em mim até hoje; como uma essência leve de patchuli.

10.6.09

The Empty Boat
(Caetano Veloso)

From the stern to the bow
Oh; my boat is empty
Yes, my heart is empty
From the hole to the how

From the rudder to the sail
Oh my boat is empty
Yes, my hand is empty
From the wrist to the nail

From the ocean to the bay
Oh, the sand is clean
Oh, my mind is clean
From the night to the day

From the stern to the bow
Oh, my boat is empty
Oh, my head is empty
From the nape to the brow

From the east to the west
Oh, the stream is long
Yes, my dream is wrong
From the birth to the death

9.6.09

/séries roubadas

1. história de um escocês na mesa de bar
eu pedi um pão na chapa ao padeiro, que pelo cenho enrugado, os pelos saltando pelos ouvidos, o sotaque de boca fechada, concluí português. Os dedos seguravam com veemência a espátula enferrujada e comprimiam na chapa o pão – reparei as mãos. Dedos grossos e unhas sujas, imundas. Sonhei alto, enojada, que dali, por debaixo das unhas grossas, compridas, daquela espécie de terra e restos humanos, poderiam nascer batatas.

2. troca de sms
meu pai fez uma música pro lago de Brasília.
pois estou no eixinho, acabo de passar pela 308.

2.6.09

São Paulo,
Dois de Junho de Dois Mil e Nove.

Faz frio. A vida vela vento sopra: filha, estou aqui.

28.5.09

Meu melhor amigo

Cuspo num cinzeiro de amianto o resto do chiclete de menta entre bitucas amassadas, brancas, laranjas, as brasas, quase douradas, e penso, sofro, um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze dias que meu pai morreu.

20.5.09

MINHA MALA, MEU PAI, MEU CORPO EMBALADO PARA VIAGEM.

12.5.09

(...)

opiácea vontade de correr
um meio dia
entre vogais

construir com o pulso
estridência

gana de esconder-se
numa coluna
de pássaros

mastigar cinza
de gorjeio

Cândido Rolim (nome de poeta), em Pedra habitada.


*Antes do Jantar

No jardim, ao luar, nossa empregada escama com tanto ardor uma carpa dourada, que as escamas voam por todos os lados, voam até o céu.
Aquelas estrelas brilhantes, lá no alto, são, na certa, as escamas da carpa.

Tsao Chang Liang & Franz Toussaint (tradução)

29.4.09

Lançamento com quiabo ao molho pardo

Vamos lançar o Semana, dia 02 de maio, na livraria Café com Letras, situada no coração de BH. Se vocês gostam do livro (ou da gente!), divulguem aos amigos que por ventura estarão por lá.
Haverá concomitante o lançamento do Transatlântico da comadre Mariana Marques. Também estarei vendendo a preço de banana algumas espécimes de Az Mulerez, para conseguir pagar a ração do Wilson no fim do mês. Apareçam! vai ser bão demais.


24.4.09

Ronalda, Romária, Luíza Inácia Lula da Silva falando sobre literatura.

21.4.09

Sopa da mamãe
Maria Eulália não previa que a sopa de batatas contivesse sonífero diluído – posto que a intenção de tomar sopa não se conjuga necessariamente com a vontade de dormir. Manfredo arquitetou o plano um pouco antes da voz metálica, porém convidativa, oferecer a tigela: “Receita de minha honrosa mãe!”. Assim, 15 minutos depois, quando Maria Eulália tombou no assoalho luzido, formando com as camadas espessas do vestido uma espécie de doce suspiro-donzela, Manfredo pode descer as alças de seda da ressonante dama e mamar demoradamente em cada um dos rosados mamilos.

Fora da geladeira,
um bife de maminha descongela sobre o pires.

17.4.09

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Olá, poucos leitores. Eu ainda existo. Pelo menos é o que o espelho do banheiro me diz todo dia de manhã. Ando pensando sempre em escrever – uma espécie de fila indiana de ideias cresce em minha cabeça. Ideias com quatro patas, ideias manetas, ideias magrinhas, ansiosas, assanhadas, perfumadas. Eu permaneço alimentado-as dia após dia, como a bruxa do João e Maria fez com as crianças antes de comê-las – comeu?
Asseguro que o próximo conto já tem título – ele dialoga com uma profecia da Pítia –, se chama Saron Vulcão. Aliás é sobre título que também quero falar. Saiu hoje um pequeno texto meu no jornal O Povo, em homenagem aos 283 anos de Fortaleza, minha terra natal onde canta o Forró Contrariar. Reproduzo-o aqui na íntegra, com o devido título original, que por alguma razão acabou sendo modificado pelo editor do caderno. Se eu estivesse lá na redação, no momento do extermínio, eu saltaria como um cão pastor, socorreria meu pobre título e rosnaria com os caninos de fora.
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Engenhoca – relato de uma missão

A fôrma foi inspirada no nariz da vovó Wanda. Masculino e redondo. As ventas sempre abertas, como se pressentissem perene um pum. Os mecanismos sugeriam uma espécie de bicicleta alada, com sensores olfativos distribuídos pelos canais nasais vulcanizados, asas de titânio, um pequeno computador central e uma cabina acolchoada. Engenharia avançada para abarcar lembranças olfativas. Funcionou: o formato aerodinâmico do enorme nariz de poliuretano contribuiu para que a engenhoca de borracha não encontrasse dificuldades em alçar voo.

O nariz alado decolou nas pistas quentes do aeroporto Pinto Martins em direção à Caucaia. Tudo ia bem, os comandos afinados, o céu de brigadeiro. Até a nave ser surpreendida por um fumacê espesso. Cheiro oleoso e nauseabundo. Mata queimada com calda de açúcar. Breve tontura, uma vontade pouca de vomitar. Estranheza mesmo que sabida: os sensores logo identificaram o odor. Lá embaixo a chaminé de uma fábrica de castanha cuspia as nuvens gordas e cinzas. Desviei em direção ao mar - sobrevoando a Leste-Oeste, o misterioso Instituto Médico Legal, lembrei da morte e do cheiro de cocô.

Passeando por sobre a Praia de Iracema os sensores registraram: o hálito agridoce de cerveja, o pai beijando a bochecha, antigo Estoril, o sol sumindo laranja no mar. À direita, subi a Rui Barbosa, recendendo ao cheiro de pipoca, de potó caído da castanhola. Élan de asseptol do fim do dia, quando o banho de mangueira, jatos gelados de cloro, era a salvação. Súbito os botões da engenhoca começaram a apitar: bafo agourento da Sucan. O jambeiro pintava o chão de rosa, o triângulo do pregoeiro tilintava longe como um sonho, a rede lavada mugia. A nave engasgou, os sensores confusos agora se mostravam mudos.

Teimei e segui a calçada nova da Beira-mar, o mix de perfumes baratos, importados, exagerados, se mesclavam com o sal dos redemoinhos das marolas mornas, salgadas, sargaço. Cabeça abandonada de camarão, picolé de morango derretido pelo queixo, posta frita de cavala. As asas da nave vacilaram; acelerei. Adiante, a Praia do Futuro, sundown bezuntado pelo corpo, o cheiro de caranguejo cozido nos dedos, na mão. Névoa de panela de milho, naftalina na gaveta, o nariz alado sucumbia em definitivo. Pouso forçado, tive que deserdar a missão. Suspirei.

Ai, amor por Fortaleza, a engenhoca pifou, o plano fracassou. Os sensores não puderam registrar toda a sequência de notas, uma cerzida na outra, às vezes esparsas, assustadoras, porque d'além, do coração.

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EXTRA
Para provar que estou realmente viva, hoje vai ao ar, às exatas 20h56, a entrevista que eu e dileta Diana concedemos à TV Unifor, derretendo sob a luz laranja do fresnel.

18.3.09

“Conheço o número dos grãos de areia e sei
o tamanho do mar; entendo os homens mudos
e posso ouvir os que não falam. Veio a mim
um certo odor, aquele de tartaruga
dotada de carcaça espessa que se coze
em caldeirões de bronze, sendo misturada
com carne de carneiro; o bronze está por baixo,
mas há também por cima dele o mesmo bronze.”
Pítia, em resposta a Croisos, rei da Lídia.

11.3.09

“O amor é importante, porra.”
(pichação no muro do cemitério da Consolação –– no sentido de quem volta do centro.)

5.3.09

4.3.09

No balcão, a Mulher Casca-de-Laranja
As depressões da pele alaranjada, sarapintada de pequenos pontos pretos, conferiam-lhe uma ar de laranja. O cenho enrugado, o olhar sisudo e o verbo azedo não condiziam com a alma da criatura, carente como um pinto, doce como um quindim. O que dá pistas do seu sumo meigo? Nenhum anel de compromisso, os cílios compridos, o batom cintilante, a presilha rósea, camuflada por entre os arbustos dos cabelos secos. Acolheu meus documentos com apoucada ternura, os dedotes gordos, e me apontou com o nariz o banco de espera. Arrisquei, vai demorar?, grunhiu sem olhar, não faço a menor ideia.

2.3.09

_Há uns meses tive a feliz surpresa de receber uns emails de um pessoal de Alfenas, em Minas. Neles estavam anexados uns poemas criados na sala de aula, feitos a partir dos textos das minhaz Mulerez com os poemas da Adélia Prado. O professor Eloésio Paulo, da Unifal, propôs à turma que reescrevesse um texto meu como se fosse da Adélia e vice-versa. Depois me mandaram o “dever de casa”. Claro que meu coração virou sorvete de morango e meu sorriso acabou provocando luxações nas minhas bochechas de quasi-trinta. E agora, com little delay, divido dois dos poemas mineiros com vocês, visitantes deste sítio branco de dramas, galinhas & abacaxis:

_O primeiro é do Eloésio que revisitou os Alheamentos de Odinalva e o segundo é da Ana Carolina que brincou com o poema Sensorial da Miss Prado.


DIVAGAÇÕES DE ODINALVA


Vaidade é um luxo que não tenho.
Perdi a frescura e o frescor
encerando o chão da madame.
Mulher, todo dia me incomoda
o bigode que Deus, distraído, me mandou.
Limpar a privada não me humilha,
que depois me limpo e me perfumo.
Leite de rosas é meu cheiro preferido
(não seria isso um luxo para mim?)
Outro cheiro, o da K-boa,
me persegue dentro de três ônibus:
é a lembrança do que sou,
ou – não sei – do que me deixei fazer.
Três dentes me restam, e penso
(em segredo, mas pensam
que eu não penso).
Demoro a chegar pro arroz, o feijão
e a solidão.
Se fosse boba, eu perguntaria
por que ele nem me olha.
Digo, o Daniel, com que sonho
quase toda noite, do meu corpo
o salvador.
Jesus é pra salvar a alma,
aprendi com minha avó.
Mas, existisse ele assim, de carne e osso,
olho azul e cabelo em caracol,
tomaria o lugar do Daniel.
Falar a verdade não pode ser pecado:
ô homem lindo, esse Jesus!



ANTROPOFÁGICA


maria cheia de galho
vou pulando
se trombar um cacho
descasco

tenho pressa
se me esfole
curto à beça

amor tem que ter pega
imaginação é mão

se for embaço
eu mesma faço
procuro outro galho

27.2.09

Vendedor de picolé
1. Com a fuça de belzebu anunciou que a catedral virará cama de baleia, que não sobrará vivalma até Caucaia e que no ano de dois mil e treze uma onda de cento e cinqüenta metros cobrirá a cidade inteira.

2. Pés encardidos, unhas sujas e quebradiças; dedos grossos, tortos, escapando da chinela.

3. Chamou o carrinho de picolé de “esta barata”:
– Estou fadado a carregar esta barata pro resto da vida.

4. Confessou que M. balançava sua rede toda noite, e que em breve viria buscá-lo.

22.2.09

Polvo
Os raios dos olhos de minha mãe. A pupila centrífuga, como o olho do furacão – a parte mais calma. Neles eu pesquei algo da loucura; o pedaço de um tentáculo, as ventosas úmidas. Polvo. Quando nos deitávamos, eu e irmã, valia-se dos tentáculos. Um para cada filha. Sobravam seis. Pavê de chocolate, Édipo Rei, xampu de Henna castanha, Pai, a rinite alérgica e o dinheiro sempre amassado, escapando dos bolsos da calça jeans.
Agora façamos uma seta de caneta bic: vinte anos depois. Estamos eu e Édipo Rei na praia. Decido dar um mergulho. O sol é uma pupila branca do céu. Édipo Rei também decide pular na água. Ele mergulha contra a onda. Eu permaneço um pouco depois da arrebentação. Motivo grifado com caneta bic: o mar está tomado de sargaço. O mar é escuro e Édipo Rei mal-humorado. O mar é escuro e cada vez que algo acaricia minhas canelas eu vivo uma experiência de morte. A água-viva, a cauda do tubarão, os caninos da moréia, os dedos magros da velha bruxa do Oeste, um pedaço morto de um tentáculo perdido. Medo do mar. Horror do mar. Eu grito, socorro, Édipo Rei, socorro! Édipo Rei vira o rosto, me chama de boba e mergulha novamente contra a pequena onda que se forma. Lá em cima, os raios dos olhos de minha mãe queimam meus ombros, e me abraçam, os tentáculos, as espumas, o cheiro de xampu, como ela costumava.

21.2.09

_Release que fiz para eles:

Lettuce transadiña uns lances, umas canções de amor:

Lettuce pode ser uma banda nova, mas também é uma aventura amorosa formada pelo casal Letícia Novaes e Lucas Vasconcellos. Neste projeto apaixonado, Letícia passeia de mãos dadas a Lucas por um caminho sinuoso, de pedras preciosas, de diferentes ritmos, de inusitada bossa: sambinha elegante, rock descabelado, folk delicado, baladinha gostosinha, seresta para cantar sob o sobrado, trilha sonora para jantar à luz de velas ou embalar no escurinho uma sarração safada no sofá.

A loventura de Letícia Novaes e Lucas Vasconcellos

Letícia lagarteia-se com Lucas sobre o palco iluminado e povoado de peixes betas, púrpuras, rubros e fosforescentes, girassóis de plástico, livros velhos empilhados, as pedras de um manancial, gelo seco, confetes de carnaval e mangueirinhas pisca-pisca de natal — daquelas que vendem em lojinha de um e noventa e nove. Letícia é alta e Lucas também. Eles se espiam apaixonados durante as canções, os aplausos e as pausas. Eles se espiam gamados um no outro, no maior transe, transadinhos, transadões. Lucas ama Letícia e Letícia ama Lucas. Amor à primeira vista. A música, a primeira pista. Da prima vez, era carnaval, era mágico, era música, era amor. Lucas e Letícia se lagartearam, como os animais, se horizontalizaram, sob o céu derretido, as estrelas caindo, o sol estourado, a lua de cromaqui. Amor, mágica e música, tudo tão a mesma coisa. Tão. Lucas vem de Petrópolis, do desenho e do Binário. Letícia da Tijuca, dos Letícios e do teatro. Lucas tem a mão levinha e Letícia a voz grave. Os dois têm o nariz grande, a boca enorme e os olhos claros. Os dois, Rio. Os dois Rio de Fevereiro. Os dois riem de nervoso. De alegria. Letícia canta calminha-calminha que tem um carinho tão raro. Aí ela respira fundo, aí ela levanta os braços, aí ela abre os olhos e solta a cabeleireira farta para dizer que tão raro. Lágrimas, luzes e acordes delicados. No palco todo mundo vê os olhos marejados. Na platéia todo mundo sorri apaixonado. No palco, na platéia, todos querem permanecer, derreter, azulejar, arriscar e de binóculos acompanhar o pássaro que voa leve-leve conduzido pelo misterioso chamado: dançar coladinho, soprar no ouvido e sentir no cangote a pele de galinha brotar. Lettuce transadiña pode ser um alface esperto mas é também bateria, sitentizador, guitarra, escaleta, alma e coração de espuma. Carioquês, francês, inglês, travelling on mayonese. Lettuce transadiña é desembocar no fim da tarde numa piscina azul, dar um tibum e sentir a água morna abençoar. É rasgar o céu, viajar de balão e sobrevoar este planeta minado de lagartas, zebras, fantasmas, chafarizes em profusão de suspiros e canções de línguas molhadas. É o sol nascendo, o mar indo e voltando, a madrugada aparecendo. Lettuce transadiña é tão raro, é loventura, é violão encantado, é flerte, é benção, é sorte. Lettuce transadiña é simplesmente amor. 

Na internet: myspace/lettucetransadina

No carnaval: o disco inaugural.

20.2.09

Esboço sobre Casulo da Milena:
Água-viva: três planos sobrepostos. Um, corpo curvado. Dois, corpo ascendente. Três, névoa. Quatro, eu não sei, socorro, ai, mulher antiga, socorro, eu não sei.

19.2.09

Minh'alma coberta por uma fina camada de poeira.
Lembro do dia, clube de rico: piscina limpa, garçom vestido de branco, bandeja rutilante na mão. O vulto preto, contra o sol: "A senhora deseja algo mais?" Sim, eu desejo saber quando os barcos deixarão a superfície.

14.2.09

_Reproduzo aqui o belo presente que ganhei da Diana, amiga querida, com quem dividi um programa de entrevista – em breve, exibido nas tevês cearenses –, mais uma cesta de frutas, mais Isadora Duncan.

Um pequeno texto que tem no livro O gato por dentro, do William Burroughs:

...então é pra você e pro Wilson.

"O gato branco simboliza a lua prateada que se intromete nos cantos e purifica o céu para o dia seguinte. O gato branco é 'o limpador', ou 'o animal que se limpa', descrito pela palavra em sânscrito Margaras, que significa 'o caçador que segue a trilha; o investigador; o rastreador ágil'. O gato branco é o caçador e o matador, e seu caminho é iluminado pela lua prateada. Todos os lugares e pessoas escondidos nas sombras são revelados sob essa luz suave inexorável. Você não consegue afastar seu gato branco porque seu gato branco é você. Não pode se esconder de seu gato branco, porque seu gato branco se esconde com você." (1986, pág. 39)

_ Notícias d’além mar da Mariana Marques: Mariana lançou seu Transatlântico mar adentro, e até agora estou nele, no convés, mareada, com vertigens de Nassar, observando a paisagem que se forma dentro. O lançamento oficial, no Theatro José de Alencar, eu aviso adiante – batizando com garrafa de champanhe.

5.2.09

_Segue abaixo o meu texto publicado dia 03/02/09 na Megazine, revista para adolescentes d'O Globo:

Balu
Balu só pensava nisso: voltar às aulas. Férias às vezes dão no saco. Férias às vezes deprimem. Férias às vezes anulam o sentido da vida. Pô! Balu e sua vida regrada, pé e mão semanais, francesinha, misturinha, só faço a unha com a Glorinha, roupa de grife lavada, passada, dobrada e empilhada em ordem cromática, arco-íris cem por cento algodão, recheando o armário de fórmica branca. A segurança do quarto branco contrastado pelos pôsteres do Romero Britto, empoeirados ursinhos da Disney sobre os móveis clean de madeira prensada. A segurança do guarda-roupa organizado pela empregada calada. O quarto-reduto de Bárbara Luciana, o tédio abafado, e, sobre a cama queen size, um filtro dos sonhos já escurecido pela fuligem da rua Humaitá.
Ah, mas Balu não ficou enfurnada no quarto, não. Viajou pra praia, pra serra, fez escova no Natal, tomou bala no Reveillon, jogou flores para Yemanjá, o lírio branco, tatuado no tornozelo, já esverdeava os tons pretos. Balu entrava no segundo ano da faculdade, comunicação-mas-não-tenho-certeza-do-que-vou-fazer. Balu entrava no terceiro ano de namoro, o Cauê-é-legal-mas-e-os-outros-caras-como-vou-saber?
Domingo, véspera do primeiro dia de aula: Balu já havia comprado a agenda 2009, estojo, canetas coloridas e os cadernos fininhos, um para cada matéria. Vez em quando ia lá, sobre a escrivaninha branca, alisar as novas aquisições da papelaria. Prazer táctil, sensação de futuro na ponta dos dedos de unha francesinha. Balu gostava de ver a letra correr gorda sobre as linhas azul-clarinho, ela fechava os olhos e adivinhava a manhã que tão-logo despontaria, o café recendendo na cozinha, o perfume doce borrifado no pescocinho.
Bárbara Luciana, presente. Bruno Almeida, presente. Os dois se sacavam tímidos: o flerte instaurado, legitimado, sutilmente escancarado desde o principio, desde quando estavam juntinhos, ela por cima dele, inocentes, safadinhos, registrados na lista de chamada. Claro que agora, no meio do curso, as coisas haviam mudado. Eles faziam matérias diferentes, às vezes as mesmas, mas em horários desencontrados. A cada semestre uma situação nova, o corte à faca, os dados lançados. As eletivas não encaixavam, os trabalhos em grupo não coincidiam, o que tornava aquela atração ainda mais tensa, bolinhas de suor sobre os lábios, coração batendo a mil.
O primeiro dia: quando ela esbarraria o boa pinta por acaso nos corredores movimentados, e, numa conversa casual-disfarçada, calcularia o tempo de convivência com o rapazola de olhos verdes.
– Vídeo popular? Pô!, eu também!
Balu abria o caderno imaculado, a reprodução do Abaporu na capa, enquanto o professor se apresentava e quebrava o gelo com uma piada: Balu escreve algum data pouca, fevereiro, quando um ano novo sai do ovo e a vida adiante espera sentada, novelo rechonchudo de lã, a vida adiante promete, canetas infalíveis, o lápis comprido apontado, cheiro de livro novo, a borracha gorda e virginal, todas as datas generosas, castas, à espera de tudo que se aprende, se ouve, se vê, se sente, daqui pra frente.

2.2.09

hoje: meu aniversário.

(para os que não moram na Guanabara, eu publico o texto later; quando já terei envelhecido exatos 29 anos e dois dias.)

24.1.09

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Paineiras, 2003
Nosso amor pintou nas Paineiras. Eu emendava um assunto atrás do outro, música, psicanálise, cinema, os efeitos terapêuticos das bicas naturais, olha lá aquele velhinho de sunga frouxa, a beleza da vista, o macaquinho que salteou no jenipapo, a moqueca de peixe que comeríamos todos mais tarde – eu inquiria a origem do teu sobrenome, Síria, Paraipaba, enquanto você mastigava lento, separava as espinhas com o garfo e respondia meneando a cabeça, uhum uhum. Eu nem tchuns pro nascimento do amor. Estava em outra, e particularmente nada na tua fuça me chamou atenção; embora lembre achar fino quando comparou Santa Tereza à Lisboa. (Nossos amigos preenchiam como cimento os vãos extensos da nossa conversa ou nós dois tapávamos os buracos entre os papos repetitivos dos nossos amigos?) Reparei no sestro de ajeitar os óculos e, durante o banho de bica, na cicatriz serpenteada na barriga. Hérnia de hiato? Não acredito, meu pai tem uma igualzinha! O amor abria os olhinhos de duas contas pequeninas.

“Teus olhos
são duas contas pequeninas
Qual duas pedras preciosas
que brilham mais que o luar
São eles
guias do meu caminho escuro
cheios de desilusão e dor […]”


Do Garoto, voz da Maria Creuza

14.1.09

Teia de aranha, capilares dobram a areia molhada, rizoma, cheiro de sundown.
Uma salva de palmas para o sol que se pôs direitinho sobre o mar, os pingos do picolé grudam as pontas do dedos: bolinhos de areia no biquíni. Penso em você, mamãe. Penso em vocês, amigos íntimos. As ondas são correntes que se originam nas fossas abissais. Quando ele, moreninho, se referia à moréia, ele dizia: “morêia”. Quando ela se referia ao tempo que a peça do bilro estaria pronta, ela usava o verbo “tirar”. Como se a peça pré-existisse, decalcada de um plano, do universo rendado, nebuloso, lácteo, trançado. Mistério. Teu amor pelos olhos indiscutivelmente verdes. Rajadas brancas, o zumzum do ar-condicionado sobre nosso leito, nossos ouvidos amorosos. Abacaxi em rodelas, mamão com açúcar, suco de goiaba, tapioca, bolo. Um folha jaz no fundo da piscina, esboço de sombra da mangueira frondosa sobre a água turva. Os bichinhos que vencem as pequenas depressões de areia. Basta focar o olho. O coqueiro pelado. Cadência, sono do mar. O prateado das ondinhas da maré baixa, e incrível: um barquinho balança pouco, nas mesma linha do nosso olhar, verde, castanho. Anho, fanho quando sou amorosinha.

10.1.09

“Adiou a resposta e se levantou de supetão meio amarga, meio esperançosa, dizendo a Domingas uma frase que no futuro repetiria tal uma prece: A esperança e a amargura... são parecidas.”
Milton Hatoum, trecho de Dois Irmãos


Susto
P. sangrava pela boca, um sangue caudaloso e escuro, um sangue que certamente vinha do estômago, baço, fígado. P. ameaçava fechar os olhos, o rosto lívido, a expressão assustadoramente tranquila. Marta animava P. beijando em suas bochechas, passando a mão em seus cabelos desgrenhados, molhados de suor frio. Calma, P., a ambulância está vindo, o susto vai passar, não fecha os olhos, força, vai, levanta a cabeça, olha pra mim, estamos contigo. Enquanto Marta mantinha P. de olhos abertos, eu ligava pedindo socorro e respondia as infindáveis perguntas de praxe para que enfim eles pudessem enviar uma ambulância. Não adiantava dizer, P. está morrendo, escuta, P. está sangrando por todos os buracos, não adiantava, a moça com quem eu falava explicou calmamente que não podia enviar uma ambulância sem que o cadastro fosse devidamente preenchido, estou cumprindo ordens, senhor. Então resolvi me submeter a todas as perguntas, calculando que, por insistir em adiantar todo o processo, eu, e principalmente P., já havíamos perdido três longos minutos. Enquanto respondia ao minucioso interrogatório o mais rápido que podia, tentando a todo custo eliminar os segundos que flutuavam entre a pergunta da moça calma e os primeiros balbucios da minha resposta aturdida, evitava olhar para trás e ver a cena aterradora de P. se desmanchando em sangue. E, mesmo que os meus olhos não testemunhassem o sofrimento de P., durante as pausas que a moça calma incrustava ao interrogatório, como se precisasse respirar profundamente para impor a pergunta seguinte, eu ouvia, manchando o silêncio difícil, o barulho aquoso das borbulhas do sangue vinho, que saía devagar por entre as narinas de P. Marta, escorada no muro, já havia se calado há um tempo e não mais afagava P. Como se adivinhasse as sirenes ressoando longe, quarenta e cinco minutos depois do susto, e P. fechando os olhos para sempre.



Aos visitantes deste blog, eu ofereço boas-vindas em 2009. A vocês que me escrevem, me falam, me encontram em casa, na rua e conversam comigo, sobre os meus textos, sobre meus planos, a vocês que me apóiam, com uma palavra boa, um abraço, um sorriso, a vocês que reclamam que eu não tenho publicado tanto, é, todos sabemos, a vida é difícil, eu digo muito, muito, obrigada. E prometo mais textos para este ano. Seja no blog ou em livro.

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