“Conheço o número dos grãos de areia e sei
o tamanho do mar; entendo os homens mudos
e posso ouvir os que não falam. Veio a mim
um certo odor, aquele de tartaruga
dotada de carcaça espessa que se coze
em caldeirões de bronze, sendo misturada
com carne de carneiro; o bronze está por baixo,
mas há também por cima dele o mesmo bronze.”
Pítia, em resposta a Croisos, rei da Lídia.
“Era uma bonita velha elegante, dona de um par de olhos grandes que deviam ter sido infinitos.”
D. Paula, trecho do conto de Machado de Assis.
Saron Vulcão
Do quarto à sala
Tlec. Desligou o despertador antes que relinchasse. Esticou as pernocas ressequidas.
Suspirou. Ergueu as mãos, as nódoas, as manchas-ilhas sugeriam pequenas Malvinas, Falklands, Cabo Verde, Príncipe. A África encarquilhada e arenosa. Vulcões. Vulcões adormecidos na África. Vulcões que calçam meias soquete de lycra para um jogging matinal. Vulcões que pintam trêmulos de azul os cantos dos olhos. Vulcões de olhos opacos, verdes modorrentos, cinzas.
Vestiu o robe rosa desgastado. Calçou as pantufas com destreza. Primeiro o direito, o esquerdo. As pernocas ágeis de Saron. Suspiro, sentada. O ventre amarelecido despontava como lava da calçola de algodão. Uma, duas, três, três dobras e meia. Seis horas da manhã. Clec. A pélvis estreita estalou ao levantar da cama. A pélvis estreitinha de Saron. Caminhou lento até o banheiro de azulejos floridos. O som das pantufas de pelúcia era quase nulo ao roçar o carpetado bege, o carpetado desbotado que cobria o assoalho do quarto. O retrato da filha. O retrato de estúdio de fotografia da filha. O fundo azulado, púrpura, azul-bandeira, tons enfumaçados como uma nuvem limpa. O sorriso molhado da filha, os dentes como os do pai, largos, alinhados. Manuela Vieira de Castro Piccani, veterinária, casada e mãe de Pedrinho. O cabelo em gel pendia para o lado, o olhar, seus mesmos olhos antigos miravam um ponto impreciso, o fundo infinito. Suspiro. “Manuela, minha filha, eu amo você”, amuou.
O rosto encarquilhado, esquadrinhado no espelho do banheiro. A lâmpada do box queimada há uns dias, penumbra azulejada. Espraiar de detergente liquido, sólidos esquecidos na privada. Bidê rosa. Suspiro. A chapa mergulhada no copo d’água. Os restos de dentes na boca. Cracas alaranjadas, incrustadas em molduras metálicas. Bafo ameno de milanos, uma brisa quente, do mangue, de verão. Gargareja, suspira, gargareja, suspira. Cospe. Encaixa a chapa. Hum. Puxa aqui o cabelo, afofa a franja, sorri. Por ora, rosto nu. Meia-lua escavada, bolsa dos olhos, rasgos profundos no cenho. Rosto nu. Canais de rios secos ao redor da boca. Um cu. A velha Senhora Saron Tartaruga deixa o banheiro.
Segue em direção à cozinha. Passa pelo corredor ornado de quadrinhos tortos. Montanhas de uma paisagem europeia, uma praia, Santa Marcelina, Manuela e Pedrinho, falecido marido vestindo a beca com a faixa azul de engenheiro. O dentes alinhados cobertos pelos lábios sérios, finos, que tanto beijou. Hum.
Chega à sala. Um vento frio assombra Saron, “mas estamos em janeiro!?”. Corre para fechar as janelas e avista um pombo inteiramente preto. Saron detesta, sente ondas freáticas de nojo, os pombos, as baratas, os ratos e aos anfíbios de couro lustroso que ela só vê na tevê; mudando de canal num clic rápido. Dando preferência aos programas de culinária conduzidos por senhoras simpáticas e compreensivas. A identificação com as apresentadoras acalantava a “Senhora Saron” – como costumava ser saudada pelos porteiros. A cor dos pombos, aquele indefinido de verde, mesclado com cinza, o violeta, um certo brilho mórbido, e até bonito, quando reluzia o sol. O pombo que pangolava pela sacada da janela era inteiramente preto. “Peculiar”, pensou. Um pequenito urubu. O céu, fundo azulado, púrpura, azul-bandeira, tons enfumaçados como uma nuvem carregada. “Choveria ou o céu estava só de mau-humor?” Fechou a janela seca de alumínio, rnhemm, gemeu.
Da sala à cozinha
Fogo. A chaleira costumeira postada na primeira boca, a esquerda do fogão. Café. Ronco do estômago. Rom. O assoalho frio atravessava a borracha velha das pantufas, os azulejos, grandes Groenlândia, Irlanda, Islândia, Grã-Bretanha. O olhar da filha, seus mesmos olhos antigos, o olhar infinito de Manuela Vieira de Castro Piccani persiste na memória de Saron. Fogo. A Senhora Tartaruga não atentou quando depois de um clic rápido do fogão automático uma víbora de fogo subia e comia a manga de seu robe rosa desgastado. De víbora passou a ser enguia, cobra, jacaré, vulcão. Fogo. A fumaça chamou atenção.
Bronze
O porteiro Isaías, depois de derrubar a porta a marteladas, descreveu emocionado, ao oficial da polícia, o corpo da Senhora Saron como um amontoado de cinzas cheirando a churrasco. O mistério macabro, seus olhos intactos, pequenitos como os de um pombo, mirando infinitos o teto da cozinha.